Com 602 focos de incêndio registrados em março, Roraima liderou o número de queimadas no Brasil e concentrou mais de um terço dos casos no país, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Bahia e Mato Grosso aparecem na sequência, com 15% e 8% dos registros, respectivamente.
O avanço dos focos ao longo de 2026 já vinha sendo observado desde o início do ano. Em janeiro, foram 219 registros no estado. Em fevereiro, o número mais do que dobrou, chegando a 493, acima da média de 423 para o período, o que representa aumento de 15,5%.
O período mais crítico das queimadas teve início entre o fim de fevereiro e meados de março, quando o fogo avançou em direção ao lavrado. Também atingiu áreas de floresta, tanto em zonas urbanas quanto rurais.
A intensificação dos incêndios levou o governo estadual a suspender o calendário de queimadas controladas em áreas rurais. A medida prevê multa para quem iniciar fogo sem autorização da Fundação Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh).
Segundo o comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar de Roraima (CBMRR), Anderson Carvalho de Matos, o ciclo 2025/2026 já contabiliza “1.600 focos concentrados especialmente nos municípios de Caracaraí e Rorainópolis, ao sul, e Normandia, ao norte”.
De acordo com ele, os “incêndios são de origem humana, criminosa e acidental”. Nas áreas urbanas, principalmente em Boa Vista, as queimadas criminosas ocorrem com o objetivo de “limpar terrenos baldios de ocupação de terras devolutas”. Já no meio rural, “servem para preparar o terreno para a plantação”.
O comandante também destacou as condições climáticas como fator agravante. O período seco, que ocorre entre outubro e março, está mais quente e seco neste ano. “Isso cria o cenário ideal para as queimadas: temperaturas elevadas e desidratação da vegetação”, afirma.
Desde novembro de 2025, o estado executa a Operação Sem Fogo, que reúne o Corpo de Bombeiros, brigadistas e integrantes da Operação Guardiões/Protetores dos Biomas do governo federal. A iniciativa integra o gabinete de crise formado por instituições estaduais e municipais.
Segundo Anderson Carvalho de Matos, as ações começaram com foco na prevenção, com 6.000 atividades realizadas em 13 dos 15 municípios.
“Com o avanço das queimadas, focamos no combate aos incêndios criminosos, inclusive dando voz de prisão aos autores. São 350 bombeiros e 148 brigadistas atuando no combate aos incêndios”, cita.
Entre o fim de março e o início de abril, pancadas de chuva foram registradas em Roraima, o que pode contribuir para reduzir os focos. Segundo o meteorologista Ramon Alves, da Femarh, “o inverno [amazônico, marcado por chuvas] começa neste início de abril, como previsto, o que deve reduzir os focos de incêndio”.
Os impactos das queimadas são percebidos diretamente pela população. Em Boa Vista, a autônoma Suerlene de Abreu Fuhrmann, 58, relatou o avanço do fogo próximo à sua residência. “Este fogo está duas casas depois da sua.” No momento, estavam na casa ela e a neta de dois anos.
Ela descreveu o cenário de tensão vivido no bairro. “Dava a impressão de que as casas iam ser incendiadas. As crianças gritavam, as pessoas gritavam, todo mundo com medo”, lembra.
Situações semelhantes têm sido registradas em diferentes áreas do estado, especialmente próximas a loteamentos. Bombeiros atuam no combate às chamas que avançam sobre terrenos secos, e um militar relatou que parte do problema ainda está associada à prática de queima de lixo.
No campo científico, o pesquisador Haron Xaud, da Embrapa e professor da Universidade Federal Rural de Roraima (UFRR), afirma que nas áreas de floresta ainda não há queimadas extensas de longa duração. Caso o período chuvoso se consolide, os focos não devem se agravar nessas regiões.
Por outro lado, ele destaca que a situação é mais crítica nas áreas de savana e lavrado. “A cidade [Boa Vista] foi cercada de fogo, são muitos focos mesmo”, afirma.
Segundo o pesquisador, o fogo provoca alta mortalidade de animais, tanto da macrofauna, como antas, quanto da microfauna, como lagartas e minhocas. Ele também ressalta que o solo fica mais pobre e com menor capacidade para a agropecuária.
A fumaça das queimadas também tem afetado a rotina da população. A servidora pública Amanda Souza, 36, relatou que “parecia que o fogo estava no quintal. Depois descobri que era duas ruas depois”.
Ela afirma que, mesmo após o fim das chamas, a fumaça permanece no ambiente. “Não importa o quanto a gente limpe, a sujeira volta. E o céu fica cinza. A gente até sente falta do sol forte daqui”, diz.
Os efeitos também são percebidos nas unidades de saúde. O pequeno Estevão, de 1 ano, ficou oito dias internado no Hospital da Criança Santo Antônio, em Boa Vista.
A mãe, Angela Silva Pinheiro, 27, relatou o impacto da fumaça. “Minha casa ficou totalmente cinza. Era como se a gente estivesse dentro da fumaça”.
Segundo ela, médicos informaram que a poluição pode ter contribuído para o quadro de bronquiolite e pneumonia do filho. Após tratamento com antibióticos, ele apresentou melhora, embora ainda tenha chiado no peito.
A médica Mayara Floss, da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), explica que o principal risco está no material particulado fino (PM2,5). “Elas conseguem entrar na corrente sanguínea e causar diversos problemas de saúde”, afirma.
No curto prazo, a exposição pode causar irritações, crises respiratórias e pneumonia. Em casos mais graves, aumenta o risco de infarto e AVC. A exposição prolongada está associada a doenças crônicas e câncer.
Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças preexistentes estão entre os grupos mais vulneráveis.
Com informações da Folha de S. Paulo
